sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Medo de ser gay na era Trump se multiplica

Se antes era difícil uma pessoa sair do armário nos Estados Unidos, com Donald Trump no poder o temor se multiplica. Desde que o magnata republicano foi eleito, em novembro, os telefones da Trevor Project, uma organização que ajuda jovens LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e intersexuais) em situação de depressão ou suicida, não param de tocar.


No dia seguinte à eleição, eles receberam 400 contatos, entre ligações e mensagens em suas plataformas virtuais – o maior número registrado em um mesmo dia.
“Antes da campanha, desta eleição, as pessoas se sentiam empoderadas, porque o caminho traçado depois [da aprovação] do casamento gay era de mais abertura e mais segurança em termos de leis e políticas públicas”, explica Steve Mendelson, diretor-executivo interino da Trevor Project, que atende cerca de 100 mil pessoas por ano, a maioria jovens com menos de 25 anos.
“Agora há um discurso que leva a comunidade a ter medo, a pensar que não podem sair do armário”, acrescentou.
Com um Congresso republicano aos pés do novo governo conservador, o temor na comunidade LGBTI é generalizado. Reverter o casamento homossexual? Terapia de conversão para mudar a orientação sexual de crianças? Mais discriminação?
“Esta vai ser a luta de nossas vidas, estaremos na resistência”, advertiu Camilla Taylor, conselheira sênior para a Lambda Legal, uma ONG dedicada à defesa dos direitos civis da comunidade LGBTI.
Mudança. “Farei tudo o que estiver ao meu alcance para proteger nossos cidadãos LGBTI da violência e da opressão de uma ideologia estrangeira de ódio”, prometeu Trump na campanha, pouco depois do atentado de junho de 2016 a uma casa noturna gay em Orlando, no qual morreram 49 pessoas. Mas o discurso foi eclipsado pelas nomeações para seu gabinete.
“Penso que devemos julgar quem ele é e no que ele acredita baseados no que ele faz, e o que ele fez até agora foi nomear o gabinete mais cheio de ódio e anti-gay que se pode imaginar”, disse Taylor.
O vice-presidente eleito Mike Pence, por exemplo, sempre votou no Congresso contra o casamento gay e contra leis de combate à discriminação de homossexuais. E, embora ele negue, há relatos de que o republicano apoia a terapia de conversão.
Além de Pence, o procurador-geral e a secretária de Educação de Trump também têm uma longa trajetória anti-LGBTI, ressaltam os ativistas.
Jim Obergefell, o viúvo que liderou o processo coletivo que levou à legalização do casamento homossexual em 2015, disse que é difícil que a Suprema Corte reverta sua decisão. Para isto, seria necessário uma “tempestade perfeita”, que é muito improvável.
Contou, porém, que teme que sejam criadas políticas que afetem a comunidade ou que as leis antidiscriminação sejam invalidadas.
A Trevor está aberta o ano todo, 24 horas por dia. A operação se divide entre Los Angeles e Nova York, com voluntários especialmente treinados. A maioria das ligações vêm do sul do país (34%), muito conservador e onde a religião ainda tem um grande peso.
“Ninguém liga pela política em si, mas pelo efeito da retórica que é usada na política”, disse David W. Bond, psicoterapeuta e vice-presidente de projetos desta organização.
Os meninos buscam apoio, alguém que os deixe desabafar. “Se tivessem um amigo ou um avô que os escutasse, não precisariam ligar para um desconhecido”, acrescentou.
Antes da posse. Desde a eleição, a Lambda e outras organizações, como o Centro LGBTI de Los Angeles, intensificaram sua assistência legal a pessoas transgênero que queriam mudar sua identidade antes do novo governo Trump, que vai tomar posse nesta sexta-feira.
E quando Trump já estiver no poder, uma minissérie sobre a luta pelos direitos homossexuais nos Estados Unidos será transmitida com sinal aberto: “When we rise” (Quando nos levantamos), de Dustin Lance Black, ganhador do Oscar pelo roteiro do aclamado filme “Milk”.
A série, de sete episódios e que será transmitida a partir de 27 de fevereiro, é uma adaptação da autobiografia de Cleve Jones, ativista dos direitos dos homossexuais e da luta contra a aids.
“Escrevi a série para essa outra América, para que possa dizer ‘ei, temos mais em comum do que vocês pensam'”, disse Black, que nasceu em uma família conservadora.
Fonte: Estadão


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