Um elogio que ofende

A ABGLT - Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais divulgou para seu mailing ontem (23/02) uma nota de elogio ao deputado cassado José Dirceu (PT) [íntegra da nota disponível aqui] por ele ter feito declarações que o presidente da ABGLT, Toni Reis, considerou favoráveis à pauta LGBT.

Em primeiro lugar, há que se ponderar que dizer que a pauta LGBT é uma questão para o partido e não para seu governo não nos parece uma declaração muito favorável. Menos ainda transforma o deputado cassado em um aliado da população LGBT, posto que nos dois anos em que comandou a Casa Civil, José Dirceu nunca moveu uma palha de seus poderes de "superministro" de Lula em nossa direção.

É uma vergonha que uma manifestação institucional, em nome das centenas de organizações que compõem a ABGLT, traga chamamentos tão pessoais ao se referir a um sujeito que saiu pela porta dos fundos do Congresso Nacional, cassado por ser um dos operadores do maior escândalo de corrupção que o Brasil já viu.

A corrupção é uma praga brasileira que leva para o ralo bilhões de reais em recursos públicos, que deveriam ser gastos na melhoria da qualidade de vida da população do nosso país. É impossível ser militante de direitos humanos e relativizar o peso da corrupção na biografia dos corruptos, são coisas diametralmente incompatíveis.

Se em seu proselitismo político o deputado cassado José Dirceu deu declarações consideradas pela ABGLT e Toni Reis merecedoras de reconhecimento, não nos oporemos. Mas fazer um documento que chama o corrupto de "companheiro de tantas lutas" e rasga menções elogiosas a seu partido, dizendo que o PT é "depositário das esperanças dos movimentos sociais" é um escandaloso desrespeito à pluralidade ideológica e partidária do Movimento LGBT.

O Diversidade Tucana tem orgulho em dizer alta e claramente: NÃO, JOSÉ DIRCEU NÃO É NOSSO COMPANHEIRO.

A justificativa de Toni Reis de que conhece Dirceu desde 1984 e de que lutaram juntos "contra todas as formas de ditadura" apenas reforça as evidências de que o presidente da ABGLT não sabe separar sua persona individual de seu papel institucional.

Quando assina como ABGLT, e não como um cidadão que individualmente tem o direito de pensar e dizer o que quiser, Toni Reis fala em nome de todas as suas associadas e até mesmo de não-associadas, já que a imprensa frequentemente considera o posicionamento da ABGLT como sendo do Movimento LGBT como um todo.

Está na hora de a ABGLT ter um comportamento bastante mais institucional, representativo e menos adesista e instrumentalizado ao falar em nome do Movimento LGBT Brasileiro! As consequências desse peleguismo já nos são bastante conhecidas nos escandalosos retrocessos que vivemos na abordagem do Governo Federal aos temas relacionados à população LGBT.

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