quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Entrevista do Reverendo Cristiano Valério no MixBrasil

A Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM) surgiu com o próprio movimento militante pelos direitos gays e vai comemorar em São Paulo, no próximo dia 20, uma década de presença em solo brasileiro e cinco anos de existência como igreja constituída, levando consigo como traço principal a inclusão de todas as minorias e uma nova ideia sobre o Cristianismo.

Nesta nova visão, o sexo antes do casamento é completamente permitido, e recomendado, desde que não atrase a cerimônia, drag queens formam grupos para animar as festas da organização, beber moderadamente não é nada demais e ser homossexual é simplesmente ser filho de um Deus que em momento algum condenou quem ama alguém do mesmo sexo que o seu, como apregoam os fundamentalistas se dizendo embasados pela Bíblia.

Em entrevista ao Mix, o responsável pela denominação no Brasil, o reverendo Cristiano Valério, se mostra alegre, sociável, faz piadas, ri, brinca e fala abertamente sobre tudo o que lhe é perguntado. Não há nada a esconder por baixo de batina alguma, nenhum desejo é reprimido desde que com respeito e moderação e a parcimônia é sempre presente em respostas equilibradas, mas não necessariamente caretas.

Essa sede de vocês é nova, eu não conhecia. Estão aqui há quanto tempo? É melhor aqui?
Estamos aqui já há um ano e alguns meses. É melhor porque facilita bastante por conta do reduto gay aqui no entorno e a facilidade de estar ao lado do Metrô Santa Cecília, isso facilita bastante o acesso das pessoas que moram em bairros. O acesso fica muito fácil para o centro.

E vocês vão comemorar cinco anos no Brasil?
Na verdade no Brasil são quase 10 anos. A ICM começou no Brasil timidamente com alguns grupos de implantação de formação. Então a gente teve algumas visitas de bispos europeus e americanos que vieram fomentar a discussão sobre Bíblia e homossexualidade, diversidade religiosa e diversidade sexual. Eles visitaram o antigo CAE-USP e o Grupo Corsa, isso há muitos anos atrás. E o CAE-USP então começou a fazer um movimento de traduzir textos da ICM para discutir essa temática da diversidade sexual e da religião.

A Academia acabou colocando isso embaixo da asa dela?
Isso. Aí começaram a surgir grupos de implantação, pessoas interessadas em formar comunidades como as que já existiam na Europa e nos Estados Unidos da fraternidade das ICMs. Um dos primeiros grupos foi no Rio de Janeiro, há quase 10 anos eles começaram e se desenvolveram lá. São cinco anos que a comunidade se reúne como igreja. Porque tem todo um processo de implantação. Quando um grupo de pessoas quer formar uma ICM não basta apenas querer. Esse grupo entra em contato com a bispa ou o bispo regional e começa o trabalho de implantação estudando a missão, a visão, os valores da organização, a teologia da ICM, que é muito singular. A ICM quase sempre é confundida com o movimento de direitos civis da comunidade LGBT e do movimento feminista e do movimento negro do que vista como propriamente uma igreja, um culto.

Porque a ICM participou desde o começo do movimento militante, desde a revolta de Stonewall?
Sim, em Stonewall tinha gente da ICM como o reverendo Troy e algumas personalidades do início da ICM. Ela começou antes do Stonewall, tanto é que as primeiras Paradas LGBT no mundo foram organizadas em salões paroquiais das ICMs. A igreja nasce junto com esse movimento todo de direitos civis da comunidade LGBT.

E hoje qual é a missão da ICM, o objetivo?
Continua sendo fazer frente a toda forma de opressão religiosa, social, qualquer forma de preconceito. Então existem hoje no mundo mais de 38 países que tem a presença da ICM, muda um pouquinho a bandeira principal de luta em alguns lugares, de acordo com a realidade de cada país. Por exemplo, ainda existem comunidades em que boa parte do seu engajamento é no movimento contra o racismo, ou feminista. Nessa particularidade a ICM tem uma coisa interessante que é uma das poucas organizações religiosas no mundo que é dirigida por uma mulher atualmente, a reverenda Nancy Wilson é a moderadora mundial da igreja já há alguns anos, depois da aposentadoria do reverendo Troy, que foi o fundador da ICM.

A ICM é evangélica, pentecostal... Qual a definição dela?
É uma coisa legal de se falar porque nos confundem muito. Aqui no Brasil existe um senso comum que diz que quem se não é católico é evangélico, no meio cristão funciona assim. Só que no Cristianismo existe uma diversidade muito grande de movimentos, de grupos. Mesmo dentro de grupos pequenos existe a diversidade. A ICM é uma igreja cristã inclusiva. Ela não é uma igreja evangélica que reproduz o discurso religioso evangélico do Brasil, muito pelo contrário, a gente repudia o discurso evangélico brasileiro. Nós nos posicionamos como cristãos ecumênicos radicalmente inclusivos e de raiz litúrgica e teológica protestante-histórica. Então a gente costuma até evitar alguns termos que são surrados pelos nosso irmãos evangélicos.

E como é a relação com as igrejas não-inclusivas como Assembleia de Deus, Batista, etc.?
Existe a relação que eles têm conosco e a que nós procuramos ter com eles. A que eles têm conosco quase sempre é a mesma que eles têm com a comunidade homossexual, com o movimento LGBT, que é essa relação muito conturbada. E aí existem as teorias deles que não mudam nunca. Ou o grupo fundamentalista crê que a homossexualidade é possessão demoníaca ou que é um desvio de conduta ou que é falta de vergonha na cara. Então eles não evoluíram muito nas suas teorias a respeito da homossexualidade.

E de vocês com eles?
Nós trabalhamos vê-los como irmãos e irmãs. Equivocados que são, limitados que são, mas que são tão filhos de Deus como qualquer outra pessoa e precisam ser respeitados, mesmo que eles não nos respeitem.

E com as outras igrejas inclusivas como a CCNE e a Igreja Para Todos?
A gente tem uma relação fraterna, de amizade. Tenho um carinho muito grande por várias lideranças de outras comunidades inclusivas, mas a gente tem uma diferença grande de proposta. As outras comunidades inclusivas são igrejas evangélicas que reproduzem o discurso evangélico com a única diferença de que eles aceitam gays, lésbicas, travestis e transexuais. Ou às vezes gays e lésbicas, ponto. Essa é a única diferença entre a igreja inclusiva e a evangélica fundamentalista. O discurso religioso não muda muito.

Aqui ele muda?
Sim, é um pouco diferente porque a ICM tem uma teologia própria, ela tem uma visão muito diferente, uma visão de desconstrução não só da questão do direito do indivíduo homossexual, mas também dos direitos de todas as pessoas. Para nós, ser inclusivo não é aceitar gays e lésbicas, isso é muito pouco. Para nós, ser inclusivo é entender que todos e todas são filhos e filhas de Deus independentemente da sua individualidade, da sua particularidade, da sua fé ou até mesmo da ausência dessa fé. Inclusive reconhecemos o direito do indivíduo em ser ateu. O ateu é tão filho de Deus quanto qualquer religioso, isso é ser inclusivo. Não é abrir um momento de tolerância para a diversidade sexual, mas é entender que todo ser humano tem a dignidade de ser filho de Deus.

Aqui no Brasil a ICM está presente em quais lugares além de São Paulo?
Tem São Paulo, Maringá, Rio de Janeiro, Vitória, Belo Horizonte e Fortaleza. Essas são comunidades já organizadas e estabelecidas, porque existem também os grupos pequenos de implantação, que estão no caminho ainda. Primeiro é um grupo de implantação, depois se torna uma missão até ser uma igreja estabelecida.

A ICM sobrevive como?
A igreja sobrevive com contribuições voluntárias dos seus membros. Uma diferença de nós para comunidades evangélicas é que nenhuma das pessoas que presta serviços na comunidade é remunerada por isso, são todos voluntários.

Eu perguntei porque a ICM realiza trabalhos, ela está presente em momentos como a 1ª Conferência Nacional LGBT, em Brasília, está sempre nas discussões da militância. Cabe religião nesses momentos?
Cabe sim. Estou lá com reverendo da ICM. Porque nós entendemos o Cristianismo como posição, então nós temos que marcar essa posição de defesa dos direitos da comunidade LGBT, não só no movimento LGBT, mas também no movimento negro, feminista. Então quando solicitado, ou não (risos), a gente dá um jeito de aparecer e de se posicionar, dizer que estamos lá marcando uma posição a favor. A ICM é muito militante. Uma dificuldade que as pessoas têm às vezes na aproximação da ICM é que não tem como se envolver com as atividades da igreja estando dentro do armário. Porque a gente dá a cara o tempo todo, participa o tempo todo.

E vocês vão à Marcha para Jesus todos os anos?
Alguns membros vão, eu já não dou conta mais de fazer isso. É que a Marcha para Jesus acontece sempre no mesmo dia da Feira Cultural LGBT de São Paulo, onde nós também temos sempre um stand. Então eu escolho ficar na Feira e falo para alguém ir lá cuidar da Sônia Hernandes! Eu não vou porque no começo eu até ia, mas já não tenho muita paciência para alguns discursos.

Você disse que é preciso estar fora do armário para participar. A ICM ajuda a pessoa homossexual a se aceitar melhor?
A contribuição social do indivíduo LGBT e dos seus familiares dentro de uma comunidade religiosa é muito grande, é bem interessante. Aqui a gente tem além dos serviços religiosos o atendimento psicológico, temos uma psicóloga que atende na quinta, na sexta e no sábado. As pessoas que nos procuram para gabinete pastoral, aconselhamento, para conversar, quando nós percebemos que o caso deveria ser acompanhado por um profissional a gente encaminha para o serviço especializado. Sem dúvida quando reúne um grupo de pessoas homossexuais, e essas pessoas trabalham essa questão da troca de experiência de tudo que eles têm em comum dessa luta nessa construção dessa relação afetiva com sua própria história, é importantíssimo. Porque a pessoa nova que vem e vive com a baixa auto-estima e com dificuldade de colocar em palavras seus sentimentos de repente encontras um grupo religioso que tem toda a diversidade da comunidade LGBT. Aqui tem pessoas que fazem show à noite, tem grupo de drag queen, tudo abertamente, tranquilo. Alguns membros se reúnem para depois do culto tomar um chopp no Caneca de Prata, vai pra Vieira de Carvalho dançar.

Pode beber, fumar, se divertir sem culpa?
Sim! Pára, por favor, imagina. Uma vez eu estava tomando um chopp e um amigo religioso, mas um pouco mais fechado, falou se eu não achava complicado estar aí bebendo um chopp e ser clérigo de uma igreja. Eu respondi que tinha um amigo muito grande que um dia foi a um casamento junto com sua mãe e o povo bebeu demais na festa de casamento e no segundo dia de festa, era tipo rave, durava uns três dias, no segundo dia a mãe dele chegou e disse que os noivos estavam envergonhados porque estava acabando a bebida. E em vez de dizer que a bebida acabou tarde ele transformou a água em vinho e a festa durou mais quatro dias. Então se Jesus que é o nosso grande mestre em vez de acabar com a festa ele transforma a água em vinho...

A bebida não é o problema?
Não, nunca. Na verdade a gente tem dificuldade é com os excessos. A pessoa quando perde o controle não é legal. E assim é com bebida e com tudo que é bom nessa vida, o que se bebe, o que se come, tudo, o sexo também. Porque isso pode virar uma patologia, alguém sofrer com isso. Se está dando prazer e é legal isso é maravilhoso. O problema é quando a pessoa começa a sofrer com isso.

Uma vez você me disse no bom humor que na ICM pode ter sexo antes do casamento, mas desde que não atrase a cerimônia. Por que você acha que existe essa coisa em torno do sexo, esse tabu?
Desde que não atrase a celebração tudo bem. Pode fazer à vontade, mas não pode atrasar a celebração porque eu não gosto de atraso (risos). O Cristianismo fundamentalista tem esse discurso hipócrita de que pecado é cometido com a genitália, tudo que tem a ver com órgão sexual é pecado. Isso a gente herdou de alguns pensamentos muito complicados. Na ICM a gente desconstrói esse pensamento religioso, por isso algumas pessoas ficam escandalizadas com a forma natural que a gente fala de sexo, pra gente sexo é uma benção, uma coisa maravilhosa. E faz também um movimento de reconciliação da sexualidade com a espiritualidade. Pra gente o ser humano é um todo indissociável, e essa pulsão, esse desejo, isso tudo é maravilhoso. Desde que com responsabilidade, desde que não seja em um contexto de violência, de abuso.

Você já sofreu preconceito de outros pastores, não dos inclusivos, mas dos ditos heterossexuais?
Não um preconceito direto, mas no nosso meio várias vezes a gente costuma receber e-mails no nosso site, comentários super maldosos, alguns ousam a profetizar doenças, morte, maldições e tal. Já aconteceu em momentos em que eu estou dando palestras algumas pessoas com muito cuidado, não manifestando um preconceito, se posicionando respeitosamente às vezes de uma forma um pouco pesada. Dou palestras em faculdades de Teologia, sindicatos, onde me chamam. É uma oportunidade para as pessoas conhecerem, porque as pessoas têm medo do desconhecido.

Todo mundo diz que a Bíblia condena a homossexualidade, que família é pai, mãe e filhos?
Existem algumas particularidades na construção da imagem da família da Bíblia que não condizem com o discurso que foi construído pelos cristãos, como, por exemplo, esse pensamento de que família é pai, mãe e o casal de filhinhos. Isso não existe na Bíblia. Monogamia na Bíblia inexiste, os homens tinham várias mulheres. Mulher era bem de consumo, quanto mais posses você tinha mais mulheres possuía. O mais humilde tinha duas, entende? E agora começa a ter um discurso monogâmico.

Mas como surge isso?
Aí é toda uma construção da moral cristã pensando não na manutenção da espiritualidade ou na moral por si só, mas na questão dos bens. O casamento por amor, por exemplo, salvo raríssimas exceções, ele não existe na Bíblia, casamento era um arranjo entre famílias, elas faziam um acordo e os noivos descobriam quem eram suas esposas no dia, na hora,. Eram como propriedades que eram compradas. Casamento por amor começa a existir em meados do século 20. Troca de alianças, por exemplo, não existe na Bíblia. O homem dava as suas alianças para suas esposas, marcando elas como gado, como de sua propriedade. Então casamento por amor, monogamia, tudo isso é uma construção moderna que nasce na preocupação com a questão dos bens. O próprio celibato dos sacerdotes católicos, a preocupação da Igreja Católica com seus bens, e aí essa exigência.

Na ICM não tem celibato?
Graças a Deus! Eu acho um pecado! A menos que o indivíduo queira, e queira muito, a gente encaminha para o psicólogo. Se ele passar pelo psicólogo e continuar com essa ideia tudo bem, a gente não tem problema nenhum com diversidade. Eu acho até legal, nunca vi, mas acho legal.

A frase mais famosa que a gente houve dos homofóbicos é que Deus fez o homem e a mulher, está na Bíblia que é assim e por isso os homossexuais vão pro inferno. Está na Bíblia mesmo isso?
O problema todo é que na verdade o texto bíblico não tinha o objetivo de explicar cientificamente nada. A mitologia dos hebreus, o livro de Gênesis, que conta aquelas histórias riquíssimas, maravilhosas, que tem muita coisa romântica e bonita ali pra gente aprender, não estava explicando a origem das espécies. A origem das espécies foi trabalhada por um outro filho de Deus chamado (Charles) Darwin. Gênesis não está trazendo informações científicas, ele traz alguns recursos religiosos de comunidades super primitivas que tinham indagações com relação à questão da origem do mundo. Aí trouxe vários elementos dessas comunidades e que foram colocados como uma colcha de retalho essas histórias todas. Tem um objetivo muito legal, quando a gente lê aquilo como uma parábola, uma história, contada por um povo que tinha uma fé, é bonito. Não é um documento, é um registro histórico apenas em alguns momentos. Tem até História, mas boa parte não. O problema é que as pessoas confundem mitologia com mentira. Mitologia é uma forma de comunicar verdades, mas que não são verdade históricas. A história de Gênesis por exemplo é para mostrar para as pessoas que Deus é a origem de tudo, mas não para explicar como foi, não tinha um repórter lá com um gravador. Deus soprou na narina de Adão e filmamos, não tem isso. Tanto que os primeiros dois capítulos se contradizem, existem dois relatos da criação. Essas histórias tinham várias versões, então você vai ter, por exemplo, um grupo que diz que Deus cria as plantas depois do sol, uma outra comunidade diz que foi antes. E hoje a gente se pergunta: como fazia a fotossíntese? O objetivo ali não é explicar nada cientificamente.

Porque tem ainda uma parte que diz que aquele que se deitar com outro homem vai pro inferno também, é abominação?
Isso está em Levíticos 18, verso 22. O fundamentalista isola um versículo e usa ele totalmente fora do seu contexto. Porque se você for ler o capítulo inteiro ele não está falando de relacionamento amoroso entre dois homens, nem de sexo consentido entre dois homens. Está no contexto de uma adoração a um deus pagão chamado Moloch em que as pessoas às vezes eram obrigadas a servir como prostitutas do templo. É no contexto de adoração a um deus da fertilidade e à violência sexual, porque essas pessoas eram obrigadas a fazer isso. Dois versículos antes do 22, que fala disso como abominação, vai falar também a respeito do sacrifício de crianças. Não está falando de relacionamento amoroso entre pessoas do mesmo sexo. De jeito nenhum. Um outro texto muito usado também é o Gênesis 19, a destruição de Sodoma e Gomorra.

Dá para dizer que esse é um clássico já. Tem filme, tem a expressão sodomita?
Sim, um clássico. É o mais frágil de todos também. O texto mitológico vai dizer que o povo da cidade se reúne em volta da casa de Ló e vai dizer pra ele trazer os hóspedes dele para fora porque eles queriam conhecê-los. E Ló nega, diz que não vão tocar neles e oferece duas filhas virgens para eles fazerem o que quiserem com elas, mas não tocar neles. Então o povo diz que ele é um estrangeiro e ainda quer mandar, pois agora vamos fazer mais mal a você do íamos fazer a eles. Isso é homossexualidade? Eu não acredito. Eu costumo brincar que quando estou em algum debate que é estranho o texto dizer que o povo da cidade se reuniu e falou ‘Ló, traz eles aqui para fora que a gente quer ir pra boate com eles, a gente quer ter uma noite maravilhosa de sexo com eles, queremos trocar MSN, lutar por direitos civis com eles’. Nada disso, eles estavam querendo estuprar os hóspedes de Ló, e estupro, seja ele homo, hétero, bi, pan, seja como for, qualquer violência, é um pecado. Então o texto não está tratando de homossexualidade como nós a conhecemos, ele está falando de violência. Digamos que a Bíblia condene a homossexualidade, o que não é verdade, nesses seis textos que as pessoas usam, existem mais de 300 textos bíblicos condenando comportamentos de união heterossexual. Pela matemática, não que eu acredite que Deus goste mais dos gays, mas a gente dá menos trabalho.

Mas o evangélico conhece a Bíblia de traz para frente. Ele não se sente mal em isolar um versículo, distorcer a palavra do Deus dele?
Não necessariamente, algumas pessoas compram o discurso que foi dito pelo pastor. A maioria não lê, ouve o que o pastor disse, o que o padre disse. Por exemplo, o texto de Gênesis, todo mundo é unânime nas igrejas fundamentalistas: Deus destruiu Sodoma porque era todo mundo gay. Mas olha que absurdo, uma população inteira era gay, os gays tinham filhos lá, olha a viagem! Tipo, Deus teve um desequilíbrio emocional e falou ‘não, vou matar todo mundo porque todo mundo é gay, eu não gosto’. É uma viagem doida. Muitas vezes as pessoas só ouvem isso, só que a gente pergunta onde está isso na Bíblia e a maioria não sabe onde está. Não está falando de homossexualidade, está falando de violência sexual, de falta de tolerância ao diferente. Por isso hoje existem muitos teólogos cristãos não gays que têm a mesma visão da ICM. Muitos deles não podem ter a liberdade de falar sobre, alguns ousam e acabam sendo punidos por conta disso.

E como funciona o casamento aqui na ICM?
Sempre temos casamento aqui, quase toda semana. Fazemos o agendamento com pelo menos 30 dias de antecedência. E não precisa ser frequentador. Na ICM o casamento não é sacramento, é uma celebração de união, uma benção. Então é como se alguém pedisse uma oração na rua, a gente não nega isso para ninguém. O casamento aqui é uma oportunidade de celebrar uma união que já existe. Existe uma diferença entre a celebração de casamento na ICM e nas igrejas tradicionais, que é uma questão conceitual. Mesmo os casais heterossexuais que se casam aqui já vivem juntos há algum tempo, a gente celebra a união estável. Então é o casal que já vive junto há algum tempo. É a celebração de algo que já existe, o casal não se une no altar. Nas nossas celebrações o casal já entra junto, nada de mãe levando o filho e o pai levando a filha, só se eles quiserem muito. É uma união que já existe, é legítima, já venceu obstáculos e por isso merece ser celebrada na presença dos amigos, dos familiares. Como a gente vai celebrar uma coisa que ainda nem aconteceu? Na Igreja Católica é desejável que o casal seja virgem para se casar, na ICM se for virgem a gente não casa.

O que é mais realista mesmo?
Sim, mais verdadeiro. Tem que ver se não há incompatibilidade. Se gosta mesmo. Esse moralismo, esse excesso religioso é desconstruído constantemente nas igrejas da ICM para ajudar não só os casais que querem celebrar a união, mas os que já celebraram também e estão na manutenção da vida a dois, que não é uma coisa muito fácil. Não existem modelos de relacionamento, o casal não pode ficar sob o jugo religioso reproduzindo um padrão que não deu certo nem para os nossos pais.

Fonte: MixBrasil

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