quinta-feira, 28 de julho de 2011

Uma realidade a ser transformada

Tiago Pavinatto e Wagner Gui Tronolone


O analista José Roberto de Toledo publica hoje no site do Estadão essa interessante análise sobre a pesquisa que o Ibope realizou sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Duas conclusões podem ser obtidas dos números segmentados da pesquisa:

1- Somos um país de homens nada modernos, de fanatismo religioso e baixa escolaridade;
2- A Democracia não pode ser identificada como simples expressão da vontade da maioria, mas um regime que garante e observa os direitos e liberdades individuais e fundamentais da pessoa.

Para nós, que lutamos por um país mais justo e igualitário, essa pesquisa não pode ser entendida como retrato de um fato consumado a ser aceito, mas sim como raio-x de um quadro de momento a ser transformado. Meros regimes de maioria são totalitários: como eram os regimes nazista, fascista, soviético, entre outros. Regimes de maioria não raramente são genocidas.

Fica flagrante entre os números dessa pesquisa o resultado de uma maciça campanha contra os direitos dos LGBTs entre algumas denominações religiosas protestantes/evangélicas. Infelizmente, sabemos o quanto elas são baseadas em mentiras e em terrorismo ideológico.

As religiões, claro, tem direito de pregar o que bem entendem. Mas o fato de seus fiéis acreditarem e seguirem as orientações políticas de seus líderes sem qualquer análise crítica revela também o Brasil da baixa escolaridade e, principalmente, do não-exercício da cidadania. Absurdos são falados sobre falsas consequências de projetos de leis e políticas públicas de promoção da cidadania LGBT sem serem confrontados com a realidade.

O exercício do pensamento crítico, a valorização da diversidade de argumentos e idéias, são valores que só podem ser adotados por uma sociedade por meio da educação. Apenas nas escolas poderemos buscar um país de cidadãos comprometidos com a tolerância, o exercício de seus direitos e deveres, e o respeito aos direitos alheios.

Essa, talvez, seja a mais triste constatação de uma pesquisa realizada poucas semanas após a presidente do Brasil vetar a aplicação de uma política pública de combate à homofobia nas escolas para tentar livrar a cara de um ministro corrupto.




Brasileiros divergem de brasileiras sobre casamento de homossexuais

por Jose Roberto de Toledo
28.julho.2011 07:00:48


Uma maioria de 55% dos brasileiros é contrária à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que autorizou a união estável entre pessoas do mesmo sexo. Mas o tema divide a população: 52% das mulheres são a favor enquanto 63% dos homens são contra. As opiniões variam muito em função da religião, idade e escolaridade dos entrevistados.
A pesquisa foi feita pelo Ibope Inteligência entre 14 e 18 de julho. Foram entrevistados pessoalmente 2 mil brasileiros de todas as regiões do país, seguindo as quotas de distribuição da população por idade, sexo e classe de consumo. A margem de erro é de dois pontos porcentuais, para mais ou para menos. Os resultados podem ser extrapolados para toda a população brasileira.
A decisão do STF vai ao encontro do que pensam os brasileiros com menos de 40 anos, e contraria os mais velhos. O apoio à união gay varia de 60% entre os jovens de 16 a 24 anos a apenas 27% entre aqueles com 50 anos ou mais.
Não há pesquisas anteriores que revelem a tendência histórica, mas se a maioria dos jovens mantiver seus pontos de vista quando envelhecer, é possível que a opinião da maioria mude no médio prazo. Isso também pode ocorrer se aumentar o grau de educação da população.
A tolerância ao casamento de pessoas do mesmo sexo cresce com a escolaridade. A aceitação da união entre homossexuais é praticamente a metade entre quem só cursou até a 4ª série do fundamental (32%) em comparação a quem fez faculdade (60%).
O mesmo ocorre com as classes de consumo. Nas classes D/E, 62% são contra à oficialização da união gay. A taxa de rejeição cai para 56% nos emergentes da classe C, e fica em 51% na soma das classes A/B. Isso se reflete nas diferenças geográficas. Entre os brasileiros do Nordeste e Norte, onde a renda e escolaridade são menores, 60% são contra a união gay.
Mas nada divide mais a opinião dos brasileiros sobre esse assunto do que a religião de cada um. Entre os 60% de brasileiros católicos (50% a 50%) e entre os 12% de ateus/agnósticos (51% de apoio) há um racha de iguais proporções. Entre espíritas e adeptos de outras religiões não-cristãs, o apoio ao casamento de pessoas do mesmo sexo chega a 60%.
Quem desequilibra as opiniões contra a união estável homossexual são os evangélicos/protestantes. Com peso de 23% no total da população em idade de votar, eles são esmagadoramente contrários à decisão do STF: 77%. Apenas 23% concordam com os ministros.
As tendências apresentadas acima se mantêm quando a pergunta é: “Você é a favor ou contra a adoção de crianças por casais do mesmo sexo?”. Praticamente os mesmos 55% são contrários, contra 45% que são a favor. A ideia tem oposição de 62% dos homens, mas só de 49% das mulheres.
O apoio à adoção por casais gays é maior entre os mais jovens (60% entre pessoas de 16 a 24 anos) e mais escolarizados (58% no nível superior). A oposição é muito maior entre os mais pobres (62% nas classes D/E) e, principalmente, entre os evangélicos (72%).
Não opinião de Laure Castelnau, diretora-executiva de marketing do Ibope Inteligência, “o brasileiro não tem restrições em lidar com homossexuais no seu dia-a-dia, mas ainda se mostra resistente a medidas que possam denotar algum tipo de apoio da sociedade a essa questão”.
Isso porque o instituto perguntou qual seria a reação do brasileiro caso seu melhor amigo revelasse ser homossexual. A grande maioria, 73%, respondeu que a revelação não afastaria um do outro. Mas 14% disseram que se afastariam um pouco do amigo gay, e 10%, que se afastariam muito. Os mais incomodados seriam os mais pobres, os mais velhos e os evangélicos.
O Ibope investigou também a opinião dos brasileiros sobre o exercício de carreiras do serviços público por homossexuais, a saber: médicos, policiais e professores do Ensino Fundamental. Embora a grande maioria não tenha restrições, o preconceito é maior contra policiais e professores gays.
Os brasileiros totalmente a favor que homossexuais trabalhem como policias são 59% da população. Outros 15% são “parcialmente a favor” (o que não deixa de ser uma forma branda de ser contra), 9% são “parcialmente contra” e 15% são totalmente contra. A maior oposição vem dos homens, dos evangélicos, dos mais pobres e dos menos escolarizados.
No caso de um homossexual dar aulas da 1º à 9º série, o apoio incondicional fica em 61% dos brasileiros. São “totalmente contra” 15%, “parcialmente contra” 9% e “parcialmente a favor” 15%. Os que sem opõem são os mesmos contrários a que haja policias gays.
Já a contrariedade a médicos homossexuais no serviço público é menor, em comparação às outras profissões. Dois em cada três brasileiros são “totalmente a favor”. Apenas 15% se declaram contra (8% totalmente, 6% parcialmente), e 17% “parcialmente a favor”.
Mais uma vez, o apoio a que os gays exerçam a carreira de médico é sensivelmente maior entre as mulheres (73%), entre os mais jovens (73% até 29 anos), entre quem fez faculdade (75%), no Sudeste (74%) entre os católicos (70%) e adeptos de religiões não-cristãs (80%).

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