O dia em que gays enfrentaram skinheads na Paulista

Por Beto Sato

Anarquistas, esquerdistas, sindicalistas e punks se juntaram para defender os direitos das minorias. Estive no confronto e vi tudo de perto. Só estavam os ativistas porque gays mesmo... Infelizmente, a participação dos LGBT foi pífia.

Pra quem olhava da calçada, no vão Livre do Masp, do lado esquerdo, estavam por volta de 40 skins proto-nazistas, uns 40% de negros ou pardos e 2 meninas. O que preocupou as autoridades presentes foi o fato de estarem reunidos 3 grupos distintos. Carecas, White Powers e Integralistas nunca se bicaram e num repente se unem para uma causa pra lá de estúpida: defender o deputado Bolsonaro, um dos mais sagazes torturadores da Ditadura Militar brasileira, aos berros de "Viados Maconheiros, morte aos pederastas, pedofilia é crime, pra que Kit Gay?".

A todo momento tentavam burlar os 2 cordões de isolamento formado por mais de 100 policiais, a fim de nos provocar. Um deles, com cara de barbie enrustida, que devia ter por volta de 20 anos de idade, cabeça raspada, olhos azuis, sarada a bilú, deu a volta pela calçada por trás do policiais e veio pra cima de nós, momento em que uns 20 dos nossos partiu pra cima da louca, que estava tão louca, sei la do quê, que se contorcia exibindo seu músculos e se mexendo feito o Robocop. Alem desses episódios, o pior foi ver o líder deles, um careca gordo de meia idade usando um sobretudo preto, com um megafone na mão, latindo feito um pit bull histérico.

Do outro lado, cerca de 150 ativistas pró-gays - gay militante mesmo tinha uns 6 ou 7. Nosso grupo era formado por uma coalizão também. Esquerdistas, pessoal do Movimento Passe Livre, vi gente com camisetas da Marcha da Maconha, Sindicalistas do SintUsp (Sindicato dos Funcionários da USP), muita gente da LER-QI - Liga Estratégica Revolucionária, Anarquistas Independentes e punks, ou anarcopunks: eita gente corajosa, que vontade de lutar contra skinheads, lutar mesmo.

Com máscaras, lenços no rosto e vinagre, estavam prontos pra levar bomba de gás, se assim a polícia resolvesse intervir com violência. A maioria dos meninos barbudinhos, magrelos ou fofinhos usava roupas de estudante de Ciências Sociais da USP (boa parte era da USP). Gritávamos: "Somos Negros e Nordestinos, lutamos juntos contra o fascismo"; "Somos os gays da periferia, lutamos contra a homofobia"; "Nazistas Fascistas, não passarão"; "Galinha verde voou, depois que o povo se organizou" (fazendo referência à Revoada dos Galinhas Verdes, batalha ocorrida na praça da Sé em 1937). Nenhum sarado, nenhuma poc-poc, nem um ursinho se quer (só eu), imaginei que fosse por conta do protesto ter sido marcado para as 10h e, afinal, lutar contra a homofobia, só se for depois do almoço. LGBT do movimento, poucos, Rogério Oliveira do Casarão Brasil, Fauze Felipe, Claudia Zuba, eu e uma das fundadoras do movimento lésbico no Brasil em 1979, Marisa Fernandes, Dimitri da Coordenação da Diversidade Sexual do Estado de São Paulo e a Dra. Maíra, Defensora Pública, também estavam presentes.

No princípio do confronto, a PM estava hostil conosco, revistou um monte de punks e deteve um por falta de documento. A PM estava equipada com mais de 4 câmeras, uma filmando de longe em cima de uma van, outra em uma moto, outra em uma mochila com um policial etc. Tinha tropa de choque, ao menos 1 batalhão, força tática e uns 20 policiais com motos. Ao todo contei uns 150 Policiais Militares que, após um estranhamento inicial, se ocuparam apenas de manter os 2 grupos afastados.

Durante 2 horas, após muitas ofensas de ambos os lados, mais um fato inesperado se deu. De repente, não mais que de repente, colam 5 "barcas" da Polícia Civil - Departamento de Homicídios e Proteção a Pessoa - DHPP e da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância - Decradi, delegacia que tem de dar conta de casos de racismo até briga de torcida. Uns 10 bofes lindos e sarados, mas muito mais sarados que as topeiras nazistas, com um distintivo prateado pendurado no peito chegaram, com cara de meninos malvados, entraram no meio dos skinheads e começaram a encaminhá-los tranquilamente para as viaturas.

Nesse momento a imprensa se alvoroçou - "ufa, nem saiu porrada e temos uma pauta garantida" -, e minha maior alegria esse ano foi ver esses trogloditas homofóbicos sendo levados, escondendo o rosto com a camiseta, humilhados pelo poder público e pela sociedade. Nesse momento uma onda de lágrimas me invadiu e me fez acreditar que a utopia dos esquerdistas, vulgarmente chamados de ANTIFAS pelos facistas, nazistas, com toda sua inocência, no fundo tinham razão e por um momento me fez acreditar também que, apesar dos Bolsonaros que nos cercam, "um mundo novo é possível" e "amanhã há de ser outro dia".

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