Como são feitas as salsichas

Por Gui Tronolone


É atribuída a Otto Von Bismarck, homem que unificou a Alemanha e tornou-se seu primeiro chanceler, a frase “os cidadãos não poderiam dormir tranqüilos se soubessem como são feitas as salsichas e as leis”. Hoje, com a descrença geral na política e nos políticos, não é mais necessário fazermos muito esforço para levar as pessoas a acreditarem que algumas ações dos políticos são jogos de cena muito bem calculados.

Um dos mais manjados desses jogos de cena é a escolha de temas para explorar simbolicamente, algo que na política geralmente é conhecido como “bandeira”. Ou seja, um tema que aquele político vai carregar para que a população passe a vê-lo como a pessoa que fala sobre aquele assunto. Essa escolha muitas vezes não tem nada a ver com as verdadeiras crenças e intenções do político. Tem a ver, sim, com seus objetivos, com a importância estratégica daquele tema em seus planos futuros.

No começo deste mês, como primeira ação de seu mandato, a senadora Marta Suplicy colheu assinaturas e protocolou o pedido de desarquivamento do PLC 122/06, o projeto de lei para criminalizar a homofobia que havia sido arquivado de acordo com o regimento do Senado, por ter atravessado uma legislatura inteira sem ser votado. A militância LGBT, com muita razão, aplaudiu a atitude da senadora. Os militantes ligados ao PT, porém, exageraram na tentativa cada vez menos frutífera de resgatar para Marta a posição de “madrinha” dos LGBTs.

Claro que reconhecemos que a senadora Marta Suplicy prestou um importante serviço aos LGBTs em conseguir desarquivar o PLC 122, sem dúvidas o projeto mais importante que temos hoje na agenda de avanços dos direitos humanos no país. O ato em si, é louvável. O que claramente está por trás dele, não.

Por que Marta escolheu uma ação ligada à população LGBT como seu primeiro ato no Senado Federal? Em 2008, disputando a Prefeitura de São Paulo contra o prefeito Gilberto Kassab, Marta lançou mão de uma propaganda de conteúdo claramente homofóbico para tentar vencer a eleição. A atitude, especialmente vinda de alguém que cultuava uma imagem de aliada dos LGBTs, causou repulsa até mesmo de militantes petistas e simbolizou uma decadência política de Marta em sua segunda derrota seguida como candidata a prefeita.

Ao escolher o Senado para voltar a vencer uma eleição, Marta acreditou que teria vida fácil para se eleger. Não teve. Foi obrigada a dissociar sua campanha da campanha de Netinho de Paula quando ele a ultrapassou nas pesquisas e Aloysio Nunes já mostrava crescimento consistente. Ficou com a segunda vaga, mas longe daquela votação redentora que planejava.

Dois setores da sociedade foram importantes na primeira eleição de Marta para prefeita, em 2000, e depois se sentiram traídos por ela: os LGBTs e a classe média-alta. Para que ela possa fazer planos políticos futuros – e ela tem muitos – é preciso recriar sua vinculação com esses setores. Limpar a barra, como se diz. Está começando pelos LGBTs – e, podem escrever, vai em breve procurar alguma ação de visibilidade para tentar sua reaproximação com a classe média-alta paulistana.

Repito: considero muito bem-vinda essa atitude de Marta e torço para que ela se dedique verdadeiramente a transformar o PLC 122 em lei, pois isso pode mudar substancialmente a vida dos LGBTs brasileiros. Para nós, do Diversidade Tucana, eles são muito mais importantes do que as questões partidárias.

O que é preciso dizer é que não esqueceremos tão facilmente as atitudes que hoje Marta tenta deixar para trás. Sua gestão na Prefeitura de São Paulo decepcionou pela timidez das poucas ações voltadas aos LGBTs e, especialmente, por sua recusa em assinar o decreto que criaria a coordenação de diversidade sexual – que o Serra criou quarenta dias após assumir a Prefeitura. E a campanha contra o prefeito Kassab, que até os setores mais conservadores da sociedade paulistana consideraram inaceitável.

Esse mesmo PLC 122/06 estava esquecido no limbo por flagrante falta de interesse do ex-presidente Lula e de seu governo. Os senadores que impediram sua tramitação eram ambos da base aliada do Lula e receberam seu apoio nas eleições do ano passado. Os dois se reelegeram e estão hoje na base da presidente Dilma. Para quem conhece de perto os meandros das relações entre Executivo e Legislativo (especialmente para quem conhece as práticas de que Lula usava na relação com o Congresso) é fácil saber que bastaria ele querer. Aliás, ainda hoje, com mais de dois terços do Senado em sua base aliada, poderia bastar a Dilma querer aprovar o PLC 122, mas ela se comprometeu por escrito em sua campanha que não atuaria a favor do projeto. Uma vergonha.

Se Marta, em sua gestão como prefeita, deixou os LGBTs de lado para não desagradar a bancada evangélica de vereadores, hoje como senadora tem mais liberdade para atuar pela aprovação do projeto. Porém, se continuar levando essa questão com o personalismo que demonstrou até agora, poderá perder apoio, e se começar a aparecer muito com ele, poderá causar uma reação mais forte da bancada evangélica no Congresso, que pode até mesmo levar a presidente Dilma a pedir que Marta recue.

Temas polêmicos no Congresso Nacional precisam andar sem causar estardalhaços. É triste, mas é a realidade do nosso Parlamento. Marta sabe disso. Foi assim, aliás, que graças à atuação silenciosa de ACM Neto (DEM) e Celso Russomanno (PP) o projeto foi aprovado na Câmara dos Deputados em 2006. No Senado não pode ser diferente.

É assim que vamos saber, de verdade, se Marta está se agarrando ao PLC 122 apenas para aparecer, ou se tem verdadeira boa intenção de fazê-lo ser aprovado.

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