O Brasil não Pode Matar Ebrahim Hamidi

Por Gui Tronolone

Em maio de 2008, na abertura da I Conferência Nacional LGBT, em Brasília, o presidente Lula falava sobre os preconceitos que ele próprio havia sofrido ao longo de sua vida quando disse que gostaria da criação de um Dia Internacional do Combate à Hipocrisia. A platéia, claro, aplaudiu. Mas eu, na mesma hora, lembrei que alguns meses depois de participar do maior evento de militância LGBT ele apoiaria o senador Marcelo Crivella na eleição para prefeito do Rio de Janeiro. Crivella, do mesmo partido do vice-presidente, é o maior responsável pela estagnação do PLC 122/06, o projeto de lei que visa tornar a homofobia um crime.

O Governo Lula é assim, vemos isso todos os dias. Tenta adoçar a boca de todo mundo, sem comprometimento real com ninguém. Atrapalha-se mesmo apenas nas questões em que é muito difícil manter-se em cima do muro. Nessas horas, mostra sua verdadeira face. As questões que envolvem os direitos humanos são bem assim. Difícil manter uma posição dúbia porque a própria omissão já é uma tomada de posição.

Se há uma coisa que podemos dizer desses oito anos de Governo Lula é que este não é um governo comprometido com os valores democráticos e com os direitos humanos. Confraterniza-se com ditadores do mundo todo, às vezes até mesmo tirando sarro da situação, omite-se frente aos desmandos deles, se finge de líder desses países todos mas nunca demonstrou sua liderança levando um deles a tomar uma posição democrática e humanitária. Aliás, pelo contrário, chegou a criticar um dissidente do regime cubano, preso político, que havia acabado de morrer em decorrência de uma greve de fome. Logo ele, Lula, que como preso político de uma ditadura também realizou o mesmo protesto e, na ocasião, contou com a mobilização de importantes lideranças pressionando por sua libertação.

Mas pior que tudo é a relação que Lula estabeleceu entre o Brasil e o Irã. Um país cujo líder nega o holocausto, frauda eleições, massacra a oposição, insiste em manter um programa nuclear recusando a inspeção da ONU, e cada vez mais recebe manifestações de apoio do governo brasileiro. E essa semana, mais um triste episódio: um homossexual condenado à morte.

Não é o primeiro e nem será o último. No Estado teocrático iraniano, a homossexualidade é punível com a morte. O presidente Ahmadinejad já havia dito que não há homossexuais em seu país e cada vez fica mais claro o motivo. Ebrahim Hamidi foi torturado até se confessar gay e, posteriormente, condenado. A opinião pública internacional começa a se levantar em oposição a esse assassinato, mas o Brasil se mantém calado.

É inaceitável o silêncio brasileiro frente às atrocidades dos governos de seus parceiros. É inaceitável também a justificativa dada nos últimos dias pelo chanceler Celso Amorim para a confraternização com ditadores de todos os tipos, dizendo “negócios são negócios”. Nos últimos oito anos o Brasil tem jogado lama na tradição de sua diplomacia, uma das mais respeitadas do mundo há décadas, e cometido o grande pecado capital das relações entre países: uma regra de ouro que diz “direitos humanos não se negociam”.

O Governo Lula está há oito anos embromando os LGBTs, lançando programas e planos que nunca saem do papel, cedendo o PLC 122/06 aos senadores fundamentalistas de sua base aliada e cooptando as ONGs do Movimento LGBT com editais de financiamento. Nesses anos, o número de assassinatos de LGBTs no Brasil quase dobrou sem que os dirigentes do governo federal esboçassem qualquer reação.

Se Lula ainda tem algum comprometimento com a democracia e os direitos humanos, que use sua dita “influência” sobre o governo iraniano para salvar a vida deste garoto. Que ofereça asilo a ele, por exemplo. Ou, se o assassinato desse jovem gay for levado a cabo, que pelo menos Lula tenha a decência de condená-lo publicamente, para que o Brasil não tenha em suas mãos o sangue de mais um ser humano que ousou ser diferente.

Comentários

  1. É revoltante a hipocrisia do presidente nos assuntos relacionados à democracia, liberdade de pensamento e direitos humanos. É muito claro que opinião do governo federal nestas áreas depende das pessoas envolvidas e é fundamentalmente ideológica. Explico.
    Considere esta situação: um regime estabelecido, claramente ditatorial, fundamentado por leis promulgadas para garantir a hegemonia de um grupo ou ideologia sob um disfarce de democracia. Este regime se chamará "regime X". De outro lado alguém que não concorda com essa ditadura que se disfarça de democracia e que se opõe publicamente, fazendo forte oposição. Este alguém se chamará "cidadão Y". Visto como um perigo para o regime, "Y" é considerado criminoso e posto na clandestinidade. Sob perseguição, "Y" decide pelo caminho da guerrilha ou das ações armadas na luta pelo enfraquecimento do regime ditatorial "X" e reestabelecimento da verdadeira democracia em seu país. Depois de algum tempo de ação, este "terrorista Y" (é assim que o "regime X" o chama) é preso. É submetido a cruéis torturas e tratamento desumano a fim de denunciar seus apoiadores e criar medo entre aqueles que simpatizam com sua visão política.
    Agora pergunto: quem o presidente Lula apoiará e justificará? Quem o presidente Lula condenará e considerará criminoso? "X" ou "Y"? A resposta é "depende".
    Esta equação se resolve assim: se "X"="regime socialista" ou "X"="regime anti-americano", então não importa quem seja "Y" pois este sempre será o criminoso, terrorista ou inimigo do povo. Pode-se prender sem julgamento justo e torturar "Y" que nosso presidente não se importa. É essa a solução que se aplica aos casos de presos políticos em Cuba e Irã ou à oposição do regime de Hugo Chaves na Venezuela. Entretanto, se "X"="regime ditatorial de direita" ou "X"="regime democrático pró-americano", então quando "Y"="companheiro" ou "Y"="revolucionário de esquerda" nosso presidente se lembrará de todas as declarações de direitos humanos e políticos que existirem e defenderá o direito do "povo" lutar contra a tirania ou o imperialismo. É o caso dos traficantes das FARC, tolerados pelo governo federal em território brasileiro, e dos "companheiros" que foram perseguidos pela ditadura militar brasileira. É o caso da "companheira" Dilma e do próprio presidente Lula.
    Os brasileiros que lutaram contra a ditadura militar foram importantes para o reestabelecimento da democracia e devem ser lembrados como pessoas que acreditavam num Brasil que poderia ser melhor. Sou contra a tortura que alguns sofreram e contra qualquer forma de ditadura ou terrorismo. Mas minha oposição a essas formas de agressão a direitos humanos e políticos não serve só para defender "companheiros", mas qualquer pessoa ou povo, mesmo que se filiem a linhas ideológicas diferentes da minha. É assim que penso que deveria ser.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas