quinta-feira, 10 de junho de 2010

A Parada LGBT e a Ditadura do Carro

Por Gui Tronolone

Todos os anos, os dias que se seguem à realização da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo nos trazem uma dezena de “formadores de opinião” alvejando o evento de críticas por ocupar durante algumas horas as avenidas Paulista e Consolação. Se dizem sem preconceitos, afirmam estar tão somente preocupados com “os outros” cidadãos da cidade, ou seja, os que não participam da Parada.

Longe de mim querer negar a editorialistas, articulistas e comentaristas o sagrado direito à opinião e à sua livre expressão. Também não vou sair por aí dizendo que, apenas por se opor à ocupação dessas avenidas pela Parada, esses opinadores sejam homofóbicos. Acho um tipo de patrulhamento ridículo de se fazer.

O que acho triste nas opiniões dos que querem retirar a Parada da av. Paulista é a profunda e enraizada ditadura do carro que toma conta dos paulistanos. A Parada não é desfile para ser mandada ao Sambódromo, é um ato político de visibilidade. Sua gênese está exatamente na apropriação das ruas da cidade pela população LGBT, uma demonstração de que a cidade também é nossa, de que somos muitos e estamos em todos os lugares.

A visibilidade social dos LGBTs é processo absolutamente inseparável da avenida Paulista. É naquela região que concentramos durante décadas o nosso convívio, a vivência da nossa verdade, dos nossos amores. Tantos meninas e meninos saídos das periferias da cidade, e até de outras cidades da Região Metropolitana, passam por verdadeiras transformações dentro dos trens e ônibus de São Paulo, deixando para traz suas máscaras para chegar à avenida Paulista plenos, donos de si, autênticos.

Não faz sentido criminalizar dessa forma a ocupação de duas vias da cidade, durante oito horas, por um único domingo do ano. Por mais importantes que sejam, está claro e provado que a cidade vive muito bem, todos os anos, com sua cessão à Parada, um evento que faz parte do calendário oficial de São Paulo e com o qual a nossa população está aprendendo a conviver há quatorze anos. Ano a ano, cada vez melhor.

Essa grita traz um triste traço de parcela da sociedade paulistana à tona. Na visão dessa gente, a cidade não pode mais pertencer às pessoas, ela é propriedade dos carros. Essa ditadura do carro está presente em diversos episódios da nossa história, dos bilionários recursos destinados a grandes obras viárias, ao constante desrespeito deflagrado contra os pedestres em nosso trânsito, passando inclusive pela morte de uma ciclista atropelada por um ônibus nessa mesma avenida Paulista no ano passado.

São Paulo tem mais de mil e quinhentos quilômetros quadrados de área e uma população de mais de onze milhões de habitantes. Será tão traumático assim que mais de um terço de sua população queira ocupar apenas duas avenidas da cidade um único domingo por ano? Pois eu acredito no contrário: é preciso que mais vezes a população coloque seu figurino mais colorido e ocupe as ruas da nossa cidade para pedir mais amor, mais paz, mais respeito pelo próximo.

Viva a Parada do Orgulho LGBT, o dia do ano em que a avenida Paulista nos dá mais orgulho!

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