O Governo Lula foi Conservador nas Questões Gays

Por Marcelo Hailer

Soninha Francine saiu da TV e foi direto para a Câmara dos Vereadores de São Paulo em 2002. Hoje, ela não ocupa mais cargo político, mas continua a ser comentarista de futebol no canal pago ESPN. Era pré-candidata ao Governo de São Paulo, mas por conta das alianças não mais disputará o referido posto. Talvez ainda saia para senadora.

Mesmo não disputando oficialmente um cargo no Executivo, Soninha é uma pessoa polêmica. Na entrevista que você lê a seguir, ela assume o seu voto em José Serra (PSDB) e diz que, se ele for eleito, a união civil será aprovada e a homofobia, criminalizada. Sobre o governo Lula, ela diz que o PT se tornou mais "conservador".

Acredita que o próximo presidente da República aprovará a união civil e a criminalização da homofobia?

Se o Serra for presidente ele não irá se opor. Ele já tomou várias atitudes desse tipo como prefeito, desde que ele foi ministro da Saúde. E também bancou uma posição avançada no governo de combate à Aids. Uma das coisas que eu mais gosto no Serra é que ele não tem medo de comprar briga com os setores: ele comprou briga com o setor tabagista e com a indústria farmacêutica.

O governo Lula poderia ter pressionado mais para que se aprovasse o PLC 122 e a união civil?

Claro. Uma das percepções que eu tenho do governo do PT (Partido dos Trabalhadores) foi o quanto ele se amancebou em suas posturas conservadoras. Fez alianças com as lideranças mais conservadoras e abriu mão de várias coisas que sempre defendeu. Você tem lá a Iara Bernardi (PT-SP), a Fátima Cleide (PT-RO), você tem pessoas que mantém as suas bandeiras, mas o governo não comprou essa briga, o governo não mobilizou a sua maioria, o governo sempre foi muito exigido por sua base governista: queremos cinco ministérios, queremos isso, queremos aquilo... Mas o governo mandou barrar a tramitação de um projeto (PLC 122) porque o senador Marcelo Crivela (PRB-RJ), que é da bancada religiosa, assim o exigiu. O PT combativo virou café com leite no governo.

Vai tentar a Prefeitura de novo?

Sim, tenho vontade de tentar a Prefeitura de novo. Não sei quantas vezes mais eu tenho ânimo. Às vezes, eu tenho medo de perder a vontade. Ser candidato é sempre uma coisa penosa e cansativa. Às vezes, passo uns momentos que eu não tenho mais vontade de ser prefeita, mas ainda não perdi a vontade completa não, acho que é só momento de histeria.

Acredita que ainda vivemos sob o machismo?

Sim, inclusive por parte das mulheres. A mulher para ser considerada perdida, vagabunda é sempre muito fácil. E nós mulheres fazemos isso também, nós pegamos no pé.

Você gostou do resultado das fotos da Playboy?

A (foto) da esquerda. Por mim só teria ela. A da direita que estou olhando com cara de peixe morto não me agradou muito.

E o seu público, sentiu que eles gostaram?

Em geral eles acharam muito divertido, outros acharam bonito e outros não se conformam com tanto escândalo. Inclusive a minha filha, que comparada comigo é super pudica e quando ela viu a foto da Playboy ela falou: "Quê? Isso é tudo?". Agora, é impressionante o quanto as pessoas falam sobre o que não viram, é assombroso e isso sempre aconteceu, mas agora com a aldeia global, milhões de pessoas saíram falando sobre o meu "ensaio" para a Playboy como se eu tivesse saído de perna aberta.

E o que você achou da Fernanda Young ter posado? Ela tem uma beleza fora do padrão, isso não te incentiva a posar?

Eu não vi o ensaio da Fernanda, fiquei super curiosa e olha que eu adoro ver ensaio de mulher pelada. Tenho os meus favoritos e eu falo: "desse eu gosto, desse eu não gosto, esse é de bom gosto..." Nunca condenei. Às vezes eu me espanto: esse piercing, meu Deus, que coisa de louco, por que mostrar o seu piercing tão íntimo? Eu tenho os meus favoritos, o da Alessandra Negrini é maravilhoso, que tem uma história que é ela como uma prostituta no carro, na rua. Eu não acho um absurdo que as mulheres posem, só que eu não tenho vontade. Eu sou mega exposta na minha vida, as pessoas sabem de muita coisa ao meu respeito, mas tem algumas coisas que são minhas e pronto. Tipo: a minha sexualidade, eu falo sobre ela quando acho que tem alguma relevância social, então se for pra falar de camisinha, de tabu, de virgindade, de prazer e que isso vai fazer com que uma menina de 15 anos se senta mais confiante por minha causa, eu falo. Fora isso, não falo, não mostro.

O que você achou do veto à campanha da cerveja Devassa?

Eu acho razoável. A gente vende cerveja instigando o apetite sexual masculino e o subtexto é: para pegar mulher você tem que beber. O veto foi feito não pelo governo, não pelo Estado, mas pelo Conselho de auto-regulamentação, e esse conselho não age sozinho, só se for provocado e ele foi provocado por um de seus membros. Mas por que só essa? Então, se outros não recorreram antes, erraram. Eu nunca recorri, mas já protestei muitas vezes no Twitter, no blog. Pois, enquanto eu luto pela descriminalização de uma substância, a outra é exaltada como a ferramenta do sucesso, da felicidade, da virilidade, então eu quero que as pessoas bebam, mas não dirijam depois de beber...

Sente vontade de fazer programas como o RG (Exibido pela TV Cultura) e Barraco MTV?

Sim, na linha do Barraco e do RG sim. Às vezes, quando tem um grande tema que eu acho que está sendo muito mal discutido, muito superficial, aí eu sinto saudades. Não que o Barraco era o programa onde você ia resolver tudo, mas eu queria ter feito um barraco sobre a entrada da Venezuela no Mercosul, porque é igual as fotos da Playboy: as pessoas falam muito sem saber, se são contra ou a favor do Mercosul... Elas nem sabem o que é Mercosul! Então eu gostaria de debater também sobre o pré-sal, sobre o Brasil ser sede da Copa, sobre o decreto do nome social, tem tantas coisas legais pra você discutir aproximando o militante, o especialista, a dona de casa, o estudante...

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